Sindicato dos Professores do Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana
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Curitiba, 24 de julho de 2021.
 
Relato do Professor Fabiano Pucci do Nascimento

Nesta semana, o Unicuritiba demitiu diversos professores e professoras de seu quadro. Docentes com muito tempo de casa, que dedicaram longos anos ao aprendizado de seus acadêmicos. Abaixo o Sinpes reproduz o texto do professor Fabiano Pucci do Nascimento, um dos demitidos e que expressa nesse relato toda a injustiça que a mercantilização do ensino promove nesta que é uma das mais tradicionais universidades de Curitiba. Confira:

“Hoje me despeço do UNICURITIBA. E meu sentimento, após 22 anos, é de extrema gratidão, por tudo que aqui vivenciei, por todos aqueles que convivi, por tudo que aprendi, por tudo que realizei e que me permitiram fazer por ali. Fui desligado, mas o que pode parecer uma condenação, é na verdade uma redenção. O UNICURITIBA que entrei e que pude construir ao lado de muitos não existe mais. O mundo mudou, os proprietários mudaram, e toda a dinâmica se transformou, ali dentro e por aí afora.

Foi uma jornada que deixará imensas saudades e me inunda de esperança. Em especial pelos alunos e alunas com os quais tanto aprendi, que me fizeram professor e coordenador, aqueles que participei da formação e direta ou indiretamente da transformação. Como uma velha árvore, carrego um pouco de cada um nas minhas folhas e galhos. Não posso deixar de agradecer aos meus professores, amigos de verdade, demais coordenadores, e aos colabores que de alguma forma se conectaram comigo numa relação de carinho, cooperação, amizade e compartilhamento. Todos têm lugar nesse coração laranja aqui. Expresso gratidão inclusive àqueles caricatos e rasos agentes recentes com os quais aprendi como não ser, que me fizeram notar mundos e situações das quais não quero tomar parte, porque afrontam demais os meus valores.

Saio triste e preocupado com a educação, especialmente com os rumos do ensino superior no Brasil. No setor público vemos ilhas de excelência cada vez mais sucateadas e com guerreiros cansados, num país no qual as lideranças se revelam sem educação, sem meio ambiente, sem ambiente algum, sem vontade, sem inteligência, sem vergonha. No setor privado, especialmente nessa nova lógica dos grandes grupos que se instalam e ganham capilaridade com extrema velocidade, observamos o comercial sobrepor o acadêmico, num caminho de enganação disfarçado de transformação, cheio de boys e piriguetes tratados como gurus. Um ambiente que se evidencia sem estrutura, sem respeito, sem pensamento, sem estofo, sem essência, com uma espetacularização que insere a todos num remake educacional do Cassino do Chacrinha, com muito playback, chacretes animadíssimas, mentiras e armadilhas, práticas escusas, bastidores indecentes, exposição indevida e esporádicos arremessos de bacalhau na alienada plateia.

Entrei menino, saio moleque. As rugas colecionadas são caminhos inesquecíveis gravados para sempre no meu rosto, nas minhas mãos, no meu coração. Do menino que adorava assistir a série V, a batalha final, ao velho cara que curtiu The Boys no Amazon Prime esse ano, continuo não perdendo a capacidade de me indignar, de acreditar no poder da criatividade, da transparência, das relações com essência. This race is over. That’s the end of this journey. Obrigado”.