Sindicato dos Professores do Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana
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Curitiba, 25 de outubro de 2020.
 
Os VENDILHÕES da educação, que não querem ensinar, só arrecadar

Para que servem as instituições de ensino –  escola, faculdades, universidades?

Para ensinar, por óbvio.

Mas quando não são capazes de ensinar, o que fazem?

Embromação, panaceias, para enganar alunos e professores.

Senão, vejamos:

Metodologias Ativas – Alguém conhece alguma metodologia de ensino que não seja ativa?

APS – Atividade Pedagógica Supervisionada – Quando não se consegue ensinar o básico.

PI – Projeto Integrador – Integrador do quê? Da mediocridade?

Plano de Ensino por Competências – Que competências? Dos que não são capazes de organizar um processo de aprendizagem para os alunos.

Sala Invertida – Como se inverter a mediocridade resolvesse.

Nos primeiros anos do boom de IES’s privadas, ingressaram alunos brilhantes, alguns doutores e mestres, em busca de uma segunda graduação ou de um complemento à primeira, e alunos de primeira graduação, com boa base de conhecimento e empenhados em dar o melhor de si, etc.

Este cenário mudou radicalmente.

Atualmente, os ingressantes fazem um vestibular fake. Mesmo com a redação obrigatória, ingressam no ensino superior privado alunos analfabetos. As provas aplicadas nos vestibulares das IES’s privadas, com raríssimas exceções, existem para constar, mas não avaliam nada, até porque esse não é o objetivo. Em alguns casos nem prova de ingresso tem.

Recebidos, esses alunos, sem o mínimo do conhecimento necessário para  cursar o ensino superior, são vítimas, mais uma vez, porque não conseguirão aprender.

Como aprender sem o domínio dos fundamentos básicos da língua?

Se não sabem ler, não aprendem história; se não sabem história, não são capazes de compreender e aprender sobre economia, sobre direitos fundamentais, sobre saúde, sobre o que é educação, etc .

Se não sabem ler, não aprendem filosofia; se não conhecem o básico de filosofia, não sabem o que é lógica, não são capazes de deduzir, de fazer uma abstração.

Assim as matérias e/ou disciplinas vão sendo vomitadas — esse é o termo — para essas vítimas, das quais só se quer as mensalidades, pagas em dia, 60% com fundos públicos – Fies, Prouni (não fossem esses fundos estariam falidas há muito tempo).

E os alunos não podem ser reprovados, porque senão abandonam o curso, o que significa perda de receita para a instituição.

A docência no ensino superior privado tem sido vítima desse processo, o que coincide com a mercantilização de diplomas.

Os professores  — nem todos — são os sujeitos que atrapalham esse negócio da venda de diplomas à prestação. Insistem em exigir dos alunos um aproveitamento/conhecimento nas avaliações, que, em sua esmagadora maioria, são incapazes de alcançar, pois não têm as habilidades cognitivas mínimas para aprender o que se espera que aprendam.

Os professores, principalmente os mais jovens, que também são vítimas dessa precarização do ensino, em sua maioria são incapazes de entender que não estão ensinando, mas sim contribuindo para essa lástima em que se transformou o ensino superior privado.

Vivemos um período de esvaziamento intelectual.

Os professores sofrem também com as condições de trabalho a que estão submetidos, de remuneração aviltante; são cobrados e pressionados para fazerem pesquisas, criar grupos de estudos, porque essas atividades contam pontos, nas avaliações que o MEC faz das IES’s, mas não são remunerados por essas atividades.

Dada a precariedade dos ingressantes, os professores são pressionados a não exigir muito dos alunos, são orientados a fazer as avaliações em duplas, em grupos, com consulta, etc. Não serem rigorosos com a questão da frequência, afinal os alunos trabalham, e é desse trabalho que ganham para pagar a mensalidade, que paga o salário do professor, etc, etc , etc.

Aí aparecem as panaceias para mascarar esse quadro. Os modismos, adotados, a cada tempo, para dar uma sensação de movimento, de inovação, etc., mas que não mudam nada, não resolvem nada.

O aluno concluiu o curso, mas não aprendeu, não consegue transformar o diploma em empregabilidade efetiva, em melhorias na sua renda.

Essa frustração se volta com vigor contra a instituição de ensino e sua credibilidade, reduzindo drasticamente a possibilidade do aluno recomendá-la para a família e terceiros.

Não por acaso, o índice de ingresso por recomendação de ex-alunos, está no pior grau histórico possível. Nem a oferta de bolsas e de descontos para os que  ainda estão cursando sua graduação, como incentivo para indicarem a IES para os amigos e familiares, tem alterado essa situação.

Se o aluno é precário, do ponto de vista da bagagem de conhecimento, então deveriam ser adotadas ações para corrigir esta situação.

Mas, como essas ações significam custos extras, acabam não sendo implementadas. E tudo continua rumo à mediocridade.

Os alunos, com a aprovação facilitada, percebem que estão sendo enganados.

Quando vão para o mercado de trabalho, e não conseguem se empregar, têm a certeza de que foram enganados. Outra prova de que os alunos não aprenderam, são os baixíssimos índices de aprovação, nos exames da OAB, dos Conselhos de Contabilidade, e outras provas com esse mesmo objetivo. O que fazem as IES,s? Tentam acabar com esses exames, quando deveriam ensinar seus alunos.

Assim as pessoas vão abandonando os cursos, e os que pretendiam ingressar desistem da ideia, porque se dão conta de que não vale a pena, a graduação não é efetiva para o seu futuro profissional.

O solução desse quadro passa pelo enfrentamento do problema.

Picaretar o ensino não resolve, como dito acima, só agrava o problema.

É esse o aluno que aí está.

Se o aluno ingressante é precário, do ponto de vista do conhecimento, então deve-se reconhecer isso, acolher esse aluno e trabalhar com aulas de reforço, de nivelamento de fato, para que ele alcance as habilidades cognitivas necessárias para aprender, cursar e concluir um curso superior.

As IES’s que se ocuparam em corrigir, minimamente, essa precariedade dos alunos, têm reduzido significativamente o número de abandonos de cursos, elevaram o nível de empregabilidade dos egressos de seus cursos, melhoraram, e muito, o índice da avaliação dos alunos e o institucional, no ENADE; tornaram-se boas referências entre as instituições, elevando o número de alunos interessados e ingressantes nos seus cursos.

Trazer o aluno para um nível mínimo de aprendizagem, para poder cursar a carreira escolhida, é o que se espera de uma instituição de ensino, e é efetivo no que se refere à permanência no curso do aluno pagante e gerador de receita para a IES.

Essas ações de nivelamento são muita mais baratas se comparadas com as perdas significativas de receitas causadas pelo abandono e desistência, somada a perda de credibilidade/confiança causada pela facilitação nas avaliações e frouxidão no controle de frequência.

Edson F. Stein

Professor no ensino superior privado, Mestre e Doutor em Educação pela UFPR.