Sindicato dos Professores do Ensino Superior de Curitiba e Região Metropolitana
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Curitiba, 19 de janeiro de 2019.
 
Mensagens de Dois Professores Demitidos pela Estácio de Sá

Confira a manifestação de dois professores demitidos pela Estácio de Sá que manifestam sua decepção com a IE depois das demissões em massa:

1ª MENSAGEM

“Muita gente me mandando a tal decisão que suspende as demissões na Estácio.

 

É uma boa notícia, não é?

 

Não sei.

 

Há muito tempo estava difícil entrar em sala. Vivíamos um clima de constantes ameaças, cobranças absurdas, incoerências. Os próprios coordenadores perdidos e tentando proteger os professores das arbitrariedades de quem só pensa em dinheiro e nem sabe o que é uma sala de aula.

 

Coordenação de curso é uma coisa. Os coordenadores são professores (Bira, Ronaldo). Gestão do campus é outra. O problema está aí. A parte administrativa/financeira é que toma todas as decisões.

 

No final deixei de fazer tudo o que não fosse remunerado. Bancas, TCC, etc. Acredito muito em reciprocidade. Amor tem que ser correspondido. A Estácio estava tratando a gente como número.

 

Não entendam mal. Fui muito feliz lá. Foram 20 anos. Durante muito tempo fui muito feliz. Igual a certos casamentos: amei e fui amada mas o amor acabou e eu ainda me apegava à nostalgia. Ficava pensando: isso vai passar, vamos voltar a ser o que éramos. Quase um relacionamento abusivo. Eu apanhava todo dia, ouvia que não prestava todo dia, que ninguém mais ia me querer. E não ia embora.

 

Semestre passado vivi uma situação emblemática. Estava aplicando prova. Sempre fui de carteira em carteira entregar a lista de presença. Uma aluna não era da turma. Perguntei se tinha autorização para fazer prova. Não tinha, não faz prova. É a regra. Saiu.

 

Passados alguns minutos a porta da sala foi aberta com estardalhaço. Durante a prova. Adentram dois indivíduos da coordenação para me repreender na frente da turma. Foram à minha mesa. Um pegou da minha mão a lista de frequência. E eu estava apenas cumprindo as regras da própria faculdade! Fiquei tão chocada com aquilo! Sou professora, não se faz isso com um professor na frente da turma!

 

Outro caso, esse um pouco anterior. Turma pequena. Ar condicionado gelado. Deliberamos por desligar. Um aluno foi contra. Saiu de sala. Depois a coordenadora veio falar comigo que o aluno tinha ido ao gestor (que deveria ter no máximo uns 30 anos e não era professor) para reclamar. O gestor disse à minha coordenadora “se a professora é problemática, zera a carga horária dela.” Assim, sem ouvir ninguém e por causa do ar-condicionado.

 

Outro caso, também de semestres passados. Eu estava afônica. Precisava de microfone. O campus só tem um. A então gestora disse, LITERALMENTE: está com problema de voz, professora? Pede demissão.

 

Anteontem cheguei à faculdade para aplicar prova. Minha prova não estava no balcão onde deveria estar. Não sabia que seria demitida, reclamei. O funcionário achou minha prova, me entregou e eu subi. Durante a prova recebi uma mensagem no Whatsapp de uma professora competentíssima que estava sendo demitida naquele momento. Comecei a chorar na frente da turma. Logo as mensagens eram muitas. Todos os meus amigos, praticamente, sendo desligados. Bira veio à minha sala e genuinamente não sabia se eu ficaria ou não. Demos um abraço. Ele também estava muito emocionado.

 

Os coordenadores de Direito sequer foram consultados. Sequer foram comunicados.

 

Ao final da prova fui à sala dos professores e perguntei. Eu teria prova à tarde. Seria demitida ou não? Eram 9:30h da manhã. Me fizeram esperar até as 13:50h.

 

Na hora da demissão o gestor disse: o campus continua aberto para a senhora, se a senhora estiver por aqui, precisar beber uma água…

 

E esse foi o fim melancólico de uma relação de 20 anos.

 

Quem fica vai ter que dar aula de Civil em 2 tempos. Todo o Civil. Todo o Penal. Dois tempos! Para turmas cada vez maiores. Nesse clima. Será que eu quero isso para a minha vida?

 

Eu gostaria que tudo voltasse a ser como era antes. Mas a decisão judicial não tem poderes mágicos.”

 

 

2ª MENSAGEM

Por um Professor demitido pela Estácio:

 

“A minhas alunas e alunos.

 

Ontem eu e mais de 60 colegas professores, mães e pais de família, mestres e doutores, educadores, recebemos de súbito, como um sombrio presente de Natal, o desafio de procurarmos novos empregos.

 

Em um país recentenente arruinado por um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo – pacto nefasto tramado pelas nossas mais gananciosas elites políticas e corporativas contra a gente trabalhadora brasileira que o fez ser agora celeiro de milhões e milhões de desempregados e novos famintos – perder um emprego torna a nós, dezenas de professoras e professores demitidos em massa, apenas mais alguns dessa gigante multidão de golpeados.

 

Estamos nós neste momento pagando o pato que um dia foi inflado nas ruas por aqueles que agora se calam. Fizeram coreografia também. Agora somos nós trabalhadores que dançamos. Uma situação lamentável, de certo. Entretanto, o que mais me machuca, e que quero compartilhar com vocês, não é exatamente isso.

 

O que mais me dói neste momento, a mim e, acredito, a qualquer professor por vocação, é o abrupto afastamento de cada um de minhas alunas e alunos, aliás, feito antes mesmo de sequer estar terminado o semestre.

 

Um ferreiro ou carpinteiro lidam como objetos de ferro ou madeira que produziram. Alunos, porém, não são coisas. Não são produtos que eventualmente podem ser comercializados faltando peças, como em um saldão de black friday. A educação possui uma característica profundamente distinta.

 

Educadores não “lidam profissionalmente” com alunos-matrícula, mas sim se “inter-relacionam” não apenas profissionalmente, mas, antes, “humanamente” com pessoas. Sujeitos com os quais se constroem laços e vínculos interpessoais – em especial vínculos de confiança – , que são pedra de fundamento da docência.

 

Por isso, é realmente doloroso para uma educador ser afastado abruptamente desses a quem nos dedicamos desde seus primeiros passos no conhecimento acadêmico, e de quem recebemos confiança cognitiva e emocional. Não estou a lamentar aqui pela rotina da sala, ou ainda menos pela carteira de trabalho, contra-cheque ou coisas que tais.

 

O que faz minhas lágrimas correrem hoje é principalmente não poder sequer ter podido dizer pessoalmente um até breve a vocês minhas alunas e alunos e orientandxs desses nove bons e enriquecedores anos e desse semestre que ficou partido pelo caminho.

 

Todxs vocês, saibam que não nos encontraremos mais pelos corredores ou salas da faculdade. Mas eu é que me encontrarei em cada um de vocês no dia em que conquistarem seus canudos e alcançarem seus sonhos, no dia em que vencerem na vida por meio do conhecimento que os distinguiu como cidadãs e cidadãos e os projetou para o sucesso profissional que vocês, batalhadores, tanto merecem!

 

Nesse dia, eu e com certeza todas as muitas dezenas de professores agora demitidos em bloco, voltaremos a ter lágrimas nos olhos. Mas serão de alegria, pela certeza do dever cumprido.

 

Até breve.”