{"id":5631,"date":"2026-06-23T11:45:29","date_gmt":"2026-06-23T14:45:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/?p=5631"},"modified":"2026-06-23T14:17:13","modified_gmt":"2026-06-23T17:17:13","slug":"reflexoes-de-uma-professora-assediada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/reflexoes-de-uma-professora-assediada\/","title":{"rendered":"REFLEX\u00d5ES DE UMA PROFESSORA ASSEDIADA"},"content":{"rendered":"<p><strong>23\/06\/2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>A autora, que por enquanto prefere n\u00e3o se identificar, atualmente \u00e9 professora e ocupa fun\u00e7\u00e3o em importante curso da UNIENSINO \u2013 Centro Universit\u00e1rio de Ensino e Tecnologia do Paran\u00e1, antigamente denominada Faculdade Anchieta.<\/strong><\/p>\n<p>Quando lia sobre <em>burnout<\/em> e ambientes de trabalho t\u00f3xicos, acreditava que aquelas p\u00e1ginas descreviam outra vida \u2014 n\u00e3o a minha. Confesso que ostentava uma confian\u00e7a quase teimosa: pensava que a dedica\u00e7\u00e3o, o rigor e a paix\u00e3o pelo ensino criariam uma bolha protetora contra tais vicissitudes. Ser competente \u2013 presumia &#8211; era sin\u00f4nimo de invulnerabilidade.<\/p>\n<p>Hoje sei o quanto me enganava e escrevo este texto como uma forma de desabafo que certamente ser\u00e1 \u00fatil a centenas de professores que sofrem ou sofreram essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A hostilidade n\u00e3o chegou em forma de ruptura dram\u00e1tica. Veio sub-repticiamente disfar\u00e7ada em pequenas decis\u00f5es, em frases sussurradas, em orienta\u00e7\u00f5es impostas por mensagem, em sil\u00eancios que pesavam mais que qualquer palavra. Uma s\u00e9rie de detalhes cotidianos que, somados, corroeram a confian\u00e7a que eu mesma depositava no meu trabalho, soterrada por uma avalanche de microviol\u00eancias: ordens que calavam iniciativas, promessas que evaporavam e omiss\u00e3o diante de condutas que feriam outras pessoas.<\/p>\n<p>O choque foi, primeiro, cognitivo! N\u00e3o conseguia encaixar a narrativa que eu conhecia sobre mim mesma \u2014 professora \u00edntegra, comprometida, cuidadosa \u2014 com a imagem de algu\u00e9m que sofre persegui\u00e7\u00f5es e invisibiliza\u00e7\u00f5es. Havia um obstinado autoengano: se eu era capaz, aquilo n\u00e3o podia acontecer comigo.<\/p>\n<p>Quando a realidade bateu \u00e0 porta, trouxe consigo uma sensa\u00e7\u00e3o de estranhamento e trai\u00e7\u00e3o. Era como ler um cap\u00edtulo de um livro sombrio e perceber que, afinal, eu era a personagem principal que sucumbiria no fim!<\/p>\n<p>Reconhecer o sofrimento foi, paradoxalmente, libertador e devastador. Libertador porque me permitiu nomear o que estava acontecendo! Devastador porque calou em mim uma dor pungente!<\/p>\n<p>Percebi que n\u00e3o se trata de fraqueza pessoal nem de incapacidade profissional, mas de um ambiente que sistematicamente desvaloriza, apaga e submete. A viol\u00eancia que sofri teve a graciosidade perversa de ser discreta: n\u00e3o deixou marcas f\u00e1ceis de provar, mas deixou uma impress\u00e3o dif\u00edcil de suportar.<\/p>\n<p>Diante de todos os relatos apresentados constato que me encontro em processo de quiet quitting (demiss\u00e3o silenciosa) e que, atualmente, estou sendo constrangida a superar esse limite para formular \u201cdemiss\u00e3o ativa\u201d. O trabalho tem se tornado cada vez mais dif\u00edcil porque as diretrizes mudam sem comunica\u00e7\u00e3o adequada. Sequer sou informada sobre as novas regras que se sucedem dentro do ambiente organizacional.<\/p>\n<p>Quando existe interesse em puni\u00e7\u00e3o qualquer erro se transforma em motivo para responsabilizar a v\u00edtima desse processo de fritura. Essa evidencia-se de sorte a demonstrar que que n\u00e3o se trata de incompet\u00eancia, mas sim de uma persegui\u00e7\u00e3o descarada e desmedida.<\/p>\n<p>Os diversos atravessamentos que ocorrem diariamente mostram que n\u00e3o consigo ter controle adequado sobre os processos devido ao n\u00famero incont\u00e1vel de interfer\u00eancias de todos os part\u00edcipes dessa incomensur\u00e1vel press\u00e3o.<\/p>\n<p>Na semana nos dias 16, 17 e 18 de junho de 2026 observei com tristeza os demais profissionais recebendo suas grades hor\u00e1rias e conversando sobre as organiza\u00e7\u00f5es para o pr\u00f3ximo semestre, enquanto eu, que at\u00e9 ent\u00e3o imaginava ser uma profissional qualificada e de destaque, era descartada e desrespeitada, destinat\u00e1ria de recadinhos e deboches atravessados.<\/p>\n<p>Sigo ent\u00e3o for\u00e7ando minha capacidade f\u00edsica e mental para cumprir com meus compromissos profissionais, sem ser inclu\u00edda em qualquer planejamento ou conversa sobre o futuro do trabalho a que tanto me dedico.<\/p>\n<p>Resisto diuturnamente \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o descarada de que sou v\u00edtima permanente e ao ambiente t\u00f3xico voltado para me induzir a pedir demiss\u00e3o. A falta de apura\u00e7\u00e3o de responsabilidades reais, o descaso com os alunos e com os debates para apurar quem realmente errou e a imposi\u00e7\u00e3o constante de suposta culpa recai sobre mim mesmo quando n\u00e3o houve erro. E tal ocorre inclusive com a formaliza\u00e7\u00e3o de puni\u00e7\u00f5es em forma de advert\u00eancias que n\u00e3o observam qualquer patamar de razoabilidade ou de bom senso.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o trabalho se tornou moralmente insustent\u00e1vel, inclusive com cobran\u00e7as p\u00fablicas acerca de falhas imagin\u00e1rias sem qualquer investiga\u00e7\u00e3o adequada. Tornei-me alvo f\u00e1cil de uma persegui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica completamente desarrazoada. Essa situa\u00e7\u00e3o tem me causado um sofrimento profundo pois sinto que meu valor n\u00e3o est\u00e1 sendo reconhecido, apesar de toda a minha qualifica\u00e7\u00e3o, dedica\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o. Em suma, tem sido cada vez mais dif\u00edcil continuar for\u00e7ando minha capacidade f\u00edsica e mental sem ser reconhecida como parte integrante da equipe.<\/p>\n<p>Pugnei pelo di\u00e1logo acerca dos problemas que diuturna e artificiosamente me envolvem, tendo sido olimpicamente ignorada. Destaco que n\u00e3o ser inclu\u00edda de forma respeitosa nas decis\u00f5es que afetam meu trabalho e meu futuro profissional em uma institui\u00e7\u00e3o de ensino superior em que me dediquei de corpo e alma por 20 anos acarreta-me sensa\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o sei delimitar verbalmente.<\/p>\n<p>Sou uma profissional qualificada, dedicada e comprometida com minha fun\u00e7\u00e3o, de sorte que me provoca profunda indigna\u00e7\u00e3o e tristeza ver-me compelida a provocar a judicializa\u00e7\u00e3o de tantas agruras.<\/p>\n<p><strong><em>O SINPES entrou em contato com o Uniensino pedindo um posicionamento diante das den\u00fancias trazidas neste texto. A institui\u00e7\u00e3o respondeu por meio da nota que segue:<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;Em aten\u00e7\u00e3o aos questionamentos apresentados, a UNIENSINO esclarece que repudia de forma expressa e inequ\u00edvoca qualquer pr\u00e1tica de ass\u00e9dio moral, bullying, discrimina\u00e7\u00e3o, constrangimento ou outra conduta que comprometa a dignidade da pessoa humana, o respeito m\u00fatuo e a adequada conviv\u00eancia no ambiente acad\u00eamico e profissional.<\/em><\/p>\n<p><em>A Institui\u00e7\u00e3o mant\u00e9m o compromisso de promover um ambiente saud\u00e1vel, \u00e9tico, seguro e respeitoso para docentes, acad\u00eamicos, colaboradores administrativos e demais integrantes de sua comunidade.<\/em><\/p>\n<p><em>A UNIENSINO disp\u00f5e de normativos internos, diretrizes institucionais e canais formais destinados ao recebimento, registro, acolhimento e encaminhamento de relatos relacionados a condutas incompat\u00edveis com seus princ\u00edpios institucionais.<\/em><\/p>\n<p><em>A comunidade acad\u00eamica pode buscar orienta\u00e7\u00e3o e encaminhamento por meio das coordena\u00e7\u00f5es, dire\u00e7\u00e3o, setores administrativos competentes, Ouvidoria institucional e do N\u00facleo de Atendimento Psicol\u00f3gico e Pedag\u00f3gico \u2013 NAPP, conforme a natureza da situa\u00e7\u00e3o apresentada.<\/em><\/p>\n<p><em>Essas inst\u00e2ncias t\u00eam por finalidade acolher as demandas recebidas, orientar os envolvidos e encaminhar as situa\u00e7\u00f5es que demandem an\u00e1lise, acompanhamento ou ado\u00e7\u00e3o de provid\u00eancias institucionais.<\/em><\/p>\n<p><em>A UNIENSINO mant\u00e9m atua\u00e7\u00e3o permanente de preven\u00e7\u00e3o, orienta\u00e7\u00e3o, apura\u00e7\u00e3o e enfrentamento de comportamentos incompat\u00edveis com seus valores institucionais. Toda manifesta\u00e7\u00e3o recebida \u00e9 tratada com seriedade, responsabilidade e imparcialidade, observadas as particularidades do caso concreto.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando h\u00e1 elementos suficientes para an\u00e1lise, a Institui\u00e7\u00e3o promove os encaminhamentos cab\u00edveis, que podem envolver orienta\u00e7\u00e3o, media\u00e7\u00e3o, acompanhamento pelas \u00e1reas respons\u00e1veis, solicita\u00e7\u00e3o de esclarecimentos, an\u00e1lise administrativa e ado\u00e7\u00e3o das medidas pertinentes, conforme os fatos apurados.<\/em><\/p>\n<p><em>A UNIENSINO n\u00e3o admite qualquer forma de retalia\u00e7\u00e3o, preju\u00edzo ou tratamento discriminat\u00f3rio contra pessoa que, de boa-f\u00e9, apresente relato, colabore com eventual apura\u00e7\u00e3o ou figure como testemunha em procedimento relacionado a tais situa\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n<p><em>Ressalta-se, contudo, que a adequada apura\u00e7\u00e3o exige a apresenta\u00e7\u00e3o de elementos m\u00ednimos que permitam a identifica\u00e7\u00e3o objetiva dos fatos, tais como per\u00edodo de ocorr\u00eancia, pessoas envolvidas, circunst\u00e2ncias, eventuais testemunhas e documentos ou registros dispon\u00edveis. A exist\u00eancia de den\u00fancia ou relato, por si s\u00f3, n\u00e3o implica reconhecimento autom\u00e1tico de responsabilidade, sendo indispens\u00e1vel a an\u00e1lise individualizada e imparcial de cada situa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Por raz\u00f5es de confidencialidade, preserva\u00e7\u00e3o da intimidade dos envolvidos e prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais, a UNIENSINO n\u00e3o divulga informa\u00e7\u00f5es, documentos ou procedimentos espec\u00edficos relacionados a alunos, docentes, colaboradores ou terceiros.<\/em><\/p>\n<p><em>Dessa forma, a UNIENSINO reafirma seu compromisso de receber e analisar, com a devida seriedade e responsabilidade, toda comunica\u00e7\u00e3o formalmente apresentada, adotando as provid\u00eancias compat\u00edveis com os elementos efetivamente apurados.<\/em><\/p>\n<p><em>Atenciosamente, UNIENSINO&#8221;.\u00a0<\/em><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23\/06\/2026 A autora, que por enquanto prefere n\u00e3o se identificar, atualmente \u00e9 professora e ocupa fun\u00e7\u00e3o em importante curso da UNIENSINO \u2013 Centro Universit\u00e1rio de Ensino e Tecnologia do Paran\u00e1, antigamente denominada Faculdade Anchieta. Quando lia sobre burnout e ambientes de trabalho t\u00f3xicos, acreditava que aquelas p\u00e1ginas descreviam outra vida \u2014 n\u00e3o a minha. Confesso [&hellip;]<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on wp_trim_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on wp_trim_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,18,13],"tags":[412,413,987],"class_list":["post-5631","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-arquivo-de-noticias","category-destaque","category-home","tag-assedio","tag-denuncia","tag-uniensino"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5631","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5631"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5631\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5634,"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5631\/revisions\/5634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5631"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5631"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5631"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}