{"id":2578,"date":"2019-05-22T16:15:35","date_gmt":"2019-05-22T19:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/?p=2578"},"modified":"2019-05-22T16:15:35","modified_gmt":"2019-05-22T19:15:35","slug":"docencia-e-maternidade-a-dura-rotina-das-professoras-que-precisam-conciliar-filhos-e-sala-de-aula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/docencia-e-maternidade-a-dura-rotina-das-professoras-que-precisam-conciliar-filhos-e-sala-de-aula\/","title":{"rendered":"Doc\u00eancia e Maternidade \u2013 A dura rotina das professoras que precisam conciliar filhos e sala de aula"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pengasuhan-anak-ilustrasi-_120320185831-142.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter  wp-image-2579\" src=\"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pengasuhan-anak-ilustrasi-_120320185831-142.jpg\" alt=\"\" width=\"635\" height=\"296\" srcset=\"https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pengasuhan-anak-ilustrasi-_120320185831-142.jpg 805w, https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pengasuhan-anak-ilustrasi-_120320185831-142-300x140.jpg 300w, https:\/\/sinpes.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/pengasuhan-anak-ilustrasi-_120320185831-142-768x358.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 635px) 100vw, 635px\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1887, Rita Lobato Velho Lopes se torna a primeira mulher a se graduar no Brasil na Faculdade de Medicina da Bahia, embora tenha iniciado seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Mais de um s\u00e9culo depois e as mulheres s\u00e3o maioria no ensino superior brasileiro. Dados do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2016, \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do levantamento, revelam que as mulheres representam 57,2% dos estudantes matriculados em cursos de gradua\u00e7\u00e3o. No Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior de 2006, as mulheres representavam 56,4% das matr\u00edculas em cursos de gradua\u00e7\u00e3o. J\u00e1 na doc\u00eancia, os homens ainda s\u00e3o maioria. Dos 384.094 docentes da Educa\u00e7\u00e3o Superior em exerc\u00edcio, 45,5% s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>Ao meio universit\u00e1rio, al\u00e9m do protagonismo, as mulheres trazem tamb\u00e9m demandas pr\u00f3prias, muitas delas relacionadas ao fen\u00f4meno da maternidade. A batalha di\u00e1ria pelo cumprimento das in\u00fameras tarefas ligadas aos filhos e \u00e0 fam\u00edlia se soma ao universo da gradua\u00e7\u00e3o e da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, sejam elas estudantes, ou professoras. Dentre as necessidades das m\u00e3es que est\u00e3o inseridas nas universidades brasileiras est\u00e3o \u00e0s relacionadas a amamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entretanto, o meio universit\u00e1rio foi pensado e planejado a partir de uma arquitetura endocentrica, porque o n\u00famero de homens nas universidades era muito superior do que o das mulheres ao longo da hist\u00f3ria. Mesmo hoje, com a maior quantidade de matriculas do ensino superior sendo feita por mulheres, e quase metade da doc\u00eancia ser exercida por elas, faculdades e universidades n\u00e3o t\u00eam estrutura para atender as milhares de m\u00e3es que estudam e trabalham no ensino superior. N\u00e3o h\u00e1 creches, n\u00e3o existem espa\u00e7os para que crian\u00e7as acompanhem as m\u00e3es na gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 locais adequados para amamenta\u00e7\u00e3o ou para a extra\u00e7\u00e3o do leite.<\/p>\n<p>Se por um lado existem alunas com necessidade de amamentar, e que lutam para conciliar maternidade e sala de aula, por outro tamb\u00e9m temos professoras que se desdobram para harmonizar filhos e trabalho. O fato \u00e9 que, o problema da maternidade associado \u00e0 doc\u00eancia est\u00e1 relacionado ao modo como a condi\u00e7\u00e3o da mulher \u00e9 velada nas universidades. \u201c<em>Costuma-se pensar que o modus operandi da mulher \u00e9 igual ao do homem porque a condi\u00e7\u00e3o da mulher, e nesse caso espec\u00edfico de professoras, requer ser amplamente discutida a partir das vozes dessas mulheres e profissionais, a partir de suas experi\u00eancias vividas, legitimando tal discuss\u00e3o e, consequentemente, dando sustenta\u00e7\u00e3o a decis\u00f5es que venham a atender suas reais necessidades\u201d, <\/em>como lembra uma professora universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A gravidez e a maternidade n\u00e3o s\u00e3o apenas fen\u00f4menos biol\u00f3gicos, mas, tamb\u00e9m, fen\u00f4menos do contexto cultural, social e afetivo. Ou seja, ainda que a gravidez ocorra dentro do corpo da mulher, as responsabilidades e os significados s\u00e3o constru\u00eddos dentro do \u00e2mbito social em que a gestante est\u00e1 inserida. A universidade, por sua vez, tem papel de extrema import\u00e2ncia no percurso da busca pela ascens\u00e3o pessoal e profissional da mulher, tornando-se um suporte para o alcance do objetivo.<\/p>\n<p>Partindo do pressuposto de que a universidade \u00e9 um local de busca por emancipa\u00e7\u00e3o social das mulheres, deve-se levar em considera\u00e7\u00e3o a import\u00e2ncia da an\u00e1lise dos fatores que dificultam a perman\u00eancia na institui\u00e7\u00e3o e, logo, a emancipa\u00e7\u00e3o desses indiv\u00edduos, um local de busca por emancipa\u00e7\u00e3o social, que precisa incluir as mulheres em suas reais condi\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a falta de estrutura para as m\u00e3es est\u00e1 entre os fatores que fazem muitas alunas e tamb\u00e9m professoras abandonarem o espa\u00e7o universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Estudantes abandonam a gradua\u00e7\u00e3o, adiando o sonho do diploma universit\u00e1rio porque n\u00e3o tem com quem deixar os filhos, n\u00e3o podem, n\u00e3o querem e nem deveriam deixar porque precisam amamentar, o que \u00e9 recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade e um direito da m\u00e3e. Segundo portaria do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o do ano de 2018 todas as m\u00e3es lactantes t\u00eam o direito \u00e0 amamenta\u00e7\u00e3o assegurado em todas as institui\u00e7\u00f5es do sistema federal de ensino, independentemente da exist\u00eancia de locais, equipamentos ou instala\u00e7\u00f5es reservadas exclusivamente para esse fim. Mas na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 isso que acontece, ainda que as institui\u00e7\u00f5es privadas de ensino superior abriguem boa parte das mulheres que cursam gradua\u00e7\u00e3o hoje no Brasil.<\/p>\n<p>No universo que envolve maternidade e doc\u00eancia a realidade \u00e9 a mesma. De acordo com o artigo 396 da Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho \u2013 CLT, a empregada tem direito, durante sua jornada, a dois descansos especiais de 30 minutos cada um, para amamentar seu filho at\u00e9 que ele complete seis meses de idade. Mesmo que a legisla\u00e7\u00e3o seja cumprida (e sabemos que na pr\u00e1tica muitas vezes n\u00e3o \u00e9), n\u00e3o existe uma estrutura adequada que permita \u00e0s m\u00e3es trabalharem e, ao mesmo tempo, manterem de maneira efetiva e necess\u00e1ria os la\u00e7os afetivos com seus filhos nos primeiros meses de vida destes. \u00a0Parece que m\u00e3es e filhos se tornaram um problema social.<\/p>\n<p>Uma professora universit\u00e1ria e, recentemente, m\u00e3e, alerta que <em>\u201ca quantidade, intensidade e complexidade das demandas \u00e0s professoras universit\u00e1rias as coloca em uma situa\u00e7\u00e3o de divis\u00e3o entre vida pessoal e vida profissional. Quando associadas \u00e0 maternidade, torna o trabalho penoso e a divis\u00e3o se faz entre o intenso e complexo cuidado necess\u00e1rio aos filhos e as altas e variadas exig\u00eancias do trabalho. Em uma quest\u00e3o de tempo, essa situa\u00e7\u00e3o impacta o desempenho profissional, a vida social, os relacionamentos de forma geral, as atividades de cuidado para consigo, chegando a comprometer a sa\u00fade. Quantas professoras apresentam quadros de estresse associados ao trabalho? Quantas, por tal situa\u00e7\u00e3o de \u2018divis\u00e3o\u2019, apresentam quadros de depress\u00e3o? Como est\u00e1 a qualidade de vida dessas professoras? E daquelas que se dividem entre a maternidade e a doc\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p><em>Evidentemente que quebrar o sil\u00eancio que marca e agrava essa situa\u00e7\u00e3o vivida por professoras nas universidades privadas \u00e9 muito dif\u00edcil, pois h\u00e1 sempre a consci\u00eancia de um risco que, mais uma vez, alimenta o referido sentimento da divis\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p><em>Quando meu filho nasceu eu decidi amamentar durante o m\u00e1ximo deste tempo que eu conseguisse dentro do recomendado pela OMS, relevando que \u00e9 um direito nosso e que muitas pesquisas comprovam os diversos benef\u00edcios da amamenta\u00e7\u00e3o. No meu caso, quando voltei da licen\u00e7a maternidade ao trabalho, estava com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o por ter deixado um beb\u00ea de cinco meses aos cuidados de um terceiro, sendo alimentado por uma colher dosadora para evitar o desmame (cujo treinamento teve que come\u00e7ar bem antes e eu assistindo em vez de poder amamentar), sabendo que uma crian\u00e7a nessa idade nem diferencia ela da m\u00e3e. Meu corpo e o corpo do meu filho formavam uma estrutura, ent\u00e3o, rompida t\u00e3o precocemente. Esse sentimento j\u00e1 era cruel o bastante, mas a falta de estrutura no ambiente de trabalho agravava a situa\u00e7\u00e3o, ainda que houvesse solidariedade por parte de colegas mediante iniciativas pessoais. N\u00e3o havia um local e um tempo adequado para extrair o leite e armazena-lo at\u00e9 o meu retorno para casa. Se n\u00e3o tiver tempo, descanso, a produ\u00e7\u00e3o do leite vai sendo diminu\u00edda, o que j\u00e1 ocorre em alguma medida porque n\u00e3o h\u00e1 troca afetiva com o beb\u00ea; e espa\u00e7o adequado porque \u00e9 preciso tranquilidade e o favorecimento da lembran\u00e7a do contato com filho, sem interrup\u00e7\u00f5es, pela mesma raz\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o do leite. Afinal, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender que, por milhares de anos, o nosso corpo se adaptou a produzir leite no contato direto com o filho. Em tese, pela CLT, eu teria meia hora para amamentar ou extrair o leite em cada um dos per\u00edodos ou a possibilidade de negociar a minha sa\u00edda antecipada em uma hora, mas acabei sabendo que professoras universit\u00e1rias n\u00e3o teriam esse direito. Vamos somando tudo isso em uma situa\u00e7\u00e3o em que est\u00e1 em jogo o desejo, a necessidade e o direito de uma m\u00e3e a amamentar o seu filho. Por conta disso muitas m\u00e3es professoras desmamam as crian\u00e7as bem precocemente. Fica o desafio de saber se desmamaram porque realmente escolheram ou porque nem tiveram a condi\u00e7\u00e3o de tentar amamentar e assim perceber a maravilha que \u00e9 essa experi\u00eancia. Vivemos em uma cultura ainda t\u00e3o machista que muitas mulheres n\u00e3o sabem que amamentar \u00e9 um direito e que traz muitos benef\u00edcios tanto para os beb\u00eas quanto para elas mesmas. Sabendo e contando com condi\u00e7\u00f5es adequadas, poderiam escolher. Sem isso, como pode se tratar de uma escolha? Parece mais uma condena\u00e7\u00e3o. Quando as m\u00e3es contam com uma estrutura favor\u00e1vel e mais saud\u00e1vel ao seu filho e a si mesma, sem se sentirem divididas conforme falamos ou, mais gravemente, sem terem que abrir m\u00e3o da vida profissional, a\u00ed estamos em um cen\u00e1rio onde o machismo n\u00e3o est\u00e1, um cen\u00e1rio onde os direitos s\u00e3o assegurados tendo em vista a sa\u00fade de modo amplo. A maternidade me trouxe uma lucidez muito grande nesse sentido e fortaleceu a consci\u00eancia de que essa divis\u00e3o entre vida profissional e vida pessoal \u00e9 que precisa ser superada em uma luta di\u00e1ria e coletiva, sob a condi\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, caso contr\u00e1rio, a divis\u00e3o deixa de ser um sentimento para se tornar a escolha por um dos lados e a ruptura de direitos. Falo de aspectos de uma situa\u00e7\u00e3o vivida por mim, ainda sem considerar as pr\u00f3ximas fases da crian\u00e7a e dessa rela\u00e7\u00e3o m\u00e3e-filho. Tamb\u00e9m poder\u00edamos questionar as condi\u00e7\u00f5es nos casos de ado\u00e7\u00e3o, questionar as condi\u00e7\u00f5es da maternidade quando se \u00e9 sozinha (o) nesse papel, seja m\u00e3e ou pai, quando assumida por casais homoafetivos; poder\u00edamos tamb\u00e9m interrogar as condi\u00e7\u00f5es da paternidade, muitas vezes, privada culturalmente da viv\u00eancia da afetividade em toda sua riqueza, pelas mesmas raz\u00f5es. Discutir a maternidade pode ser um caminho \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o da sociedade dos grilh\u00f5es do preconceito e da resultante viol\u00eancia. Lembremos que a universidade \u00e9 o lugar apropriado a essa discuss\u00e3o, portanto, deve ser tamb\u00e9m uma estrutura exemplar\u201d.<\/em><\/p>\n<p>O relato mostra uma das faces enfrentadas por muitas mulheres que precisam tentar conciliar maternidade e trabalho nas universidades. Profissionais que deram e d\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es extremamente importantes no meio cient\u00edfico, que t\u00eam papel fundamental na forma\u00e7\u00e3o e na especializa\u00e7\u00e3o de profissionais que atuam nas mais diversas \u00e1reas do conhecimento. \u00c9 preciso um olhar mais humano por parte dos empregadores para com estas profissionais. Um olhar que abrace m\u00e3e e filhos, que entenda o qu\u00e3o importante e necess\u00e1rio \u00e9 estreitar os la\u00e7os afetivos entre ambos.<\/p>\n<p>O SINPES deseja um feliz dia das m\u00e3es.<\/p>\n<p>Sinpes, assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1887, Rita Lobato Velho Lopes se torna a primeira mulher a se graduar no Brasil na Faculdade de Medicina da Bahia, embora tenha iniciado seus estudos na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Mais de um s\u00e9culo depois e as mulheres s\u00e3o maioria no ensino superior brasileiro. 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